Banco Master: o que as investigações revelam após retirada do sigilo

Banco Master: o que as investigações revelam após retirada do sigilo

Brasil
11 de Setembro de 2026
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A retirada do sigilo de documentos relacionados ao Caso do Banco Master ampliou o conhecimento sobre as investigações que envolvem o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e revelou uma rede de relações que alcança servidores públicos, policiais, operadores financeiros e integrantes de diferentes instituições.

Os documentos analisados pela Polícia Federal apontam suspeitas de acesso ilegal a sistemas públicos, monitoramento de investigações, pagamento de operadores, possível influência dentro do Banco Central e utilização de estruturas privadas para atender interesses do empresário.


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O material também trouxe novos elementos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, contratos firmados pelo banco e movimentações financeiras que passaram a ser analisadas no âmbito da Corte.

Estrutura de espionagem

Um dos principais pontos revelados após a quebra do sigilo é a existência de uma estrutura clandestina de vigilância chamada internamente de “A Turma”.

Segundo a investigação, o grupo era operacionalmente comandado pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva e tinha entre seus integrantes cerca de seis policiais cooptados.

Também aparece como operador Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Felipe Mourão ou “Sicário”.

A PF aponta que Mourão recebia e repassava ordens atribuídas a Vorcaro, enquanto Marilson mantinha contato com integrantes da estrutura de segurança.

A investigação indica que o grupo acessava sistemas restritos, entre eles o ePol, da Polícia Federal, bases do Ministério Público Federal e o Infoseg.

Esses acessos teriam permitido acompanhar investigações em andamento e obter informações sobre pessoas e veículos de interesse do grupo.

Um dos episódios citados envolve o monitoramento da Notícia de Fato do MPF que antecedeu a Operação Compliance Zero.

A suspeita é de que o acompanhamento servisse para antecipar possíveis medidas judiciais contra o grupo financeiro.

A estrutura também teria realizado ações de vigilância e perseguição contra jornalistas, empresários e ex-funcionários.

Segundo os documentos, um dos casos envolve ameaças contra Luis Felipe Woyceichoski, ex-capitão de barco de Vorcaro, e familiares.

A PF também encontrou indícios de produção de documentos falsificados atribuídos a órgãos públicos. O objetivo seria provocar a retirada de publicações e perfis considerados críticos ao empresário.

Estrutura teria recebido até R$ 1 milhão por mês

A investigação aponta que a manutenção da estrutura de vigilância exigia repasses mensais de aproximadamente R$ 1 milhão.

Desse total, cerca de R$ 400 mil seriam destinados à remuneração da equipe comandada por Marilson.

Os pagamentos passavam por empresas e pessoas interpostas. Entre as empresas citadas estão a Super Empreendimentos e a King Empreendimentos, ligada a Felipe Mourão.

Também aparecem nos registros o operador financeiro Fabiano Campos Zettel e Ana Claudia Queiroz de Paiva.

As autoridades investigam possíveis crimes como violação de sigilo funcional, obstrução da Justiça e organização criminosa.

Servidora do MPF é investigada por suposto vazamento

Outro braço da apuração envolve uma servidora efetiva do Ministério Público da União.

Segundo a PF, Felipe Mourão enviava regularmente capturas de tela e arquivos em PDF com consultas processuais obtidas por meio do login da servidora.

Os investigadores afirmam que o acesso permitia acompanhar investigações e procedimentos sob sigilo, inclusive processos classificados como de sigilo máximo no sistema Único/Aptus do MPF.

A PF diferencia esses acessos daqueles realizados nos sistemas policiais.

No caso da Polícia Federal, a investigação aponta que policiais teriam sido cooptados para utilizar sistemas como o ePol.

O material também menciona acessos relacionados à Delegacia da Polícia Federal em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Relação com policiais aparece em episódio envolvendo Vorcaro

Os documentos revelados também detalham um episódio ocorrido em 19 de novembro de 2024.

Na ocasião, Vorcaro desconfiou de um veículo escuro estacionado em frente à residência dele.

O empresário fotografou a placa e enviou as imagens para Felipe Mourão, pedindo que os dados fossem levantados com urgência.

Mourão acionou integrantes de “A Turma”, que realizaram consultas em sistemas de segurança pública.

A investigação aponta que a placa estava vinculada a um veículo oficial da Polícia Federal.

Dois dias depois, Marilson teria informado que a pesquisa estava sendo realizada e sugerido até mesmo a disponibilização de um agente para acompanhar Vorcaro em Brasília.

O episódio passou a ser analisado como mais um indício da utilização da estrutura policial para atender interesses particulares do banqueiro.

PF aponta atuação de servidores do Banco Central

Outro núcleo das investigações envolve dois servidores de alto escalão do Banco Central.

Os documentos apontam para a atuação de Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária, e de Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto do mesmo departamento.

Segundo a PF, os servidores teriam atuado de maneira próxima aos interesses do Banco Master, oferecendo uma espécie de assessoria paralela a Vorcaro.

As investigações indicam que os dois revisavam previamente documentos e minutas que seriam apresentados oficialmente pelo banco ao próprio Banco Central e ao Fundo Garantidor de Créditos.

Também teriam orientado o empresário sobre estratégias relacionadas a reuniões com integrantes da diretoria do Banco Central e do FGC.

Os contatos, segundo os documentos, ocorriam fora dos canais institucionais, inclusive em encontros presenciais e em um grupo de WhatsApp chamado “Master”.

Contratos e vantagens são investigados

A PF encontrou indícios de que a suposta assessoria informal poderia ter sido acompanhada de vantagens financeiras.

No caso de Belline Santana, os investigadores identificaram contratos considerados suspeitos, incluindo uma suposta consultoria de R$ 2 milhões para um estudo sobre jovens no mercado financeiro.

Também foram identificados pagamentos periódicos e custeio de viagens internacionais.

Em relação a Paulo Sérgio, a investigação aponta movimentações imobiliárias consideradas atípicas envolvendo empresas ligadas ao círculo de Vorcaro.

Um dos negócios analisados foi a venda de um sítio em Muzambinho, Minas Gerais, por R$ 4,5 milhões para uma empresa pertencente a Fabiano Zettel.

Mesmo após a venda, a propriedade teria continuado sendo explorada para a produção agrícola pelo irmão do servidor investigado.

Diante das suspeitas, foram determinadas medidas cautelares, incluindo afastamento de funções públicas, entrega de passaportes, proibição de contato e uso de tornozeleira eletrônica.

A Corregedoria-Geral do Banco Central também abriu sindicâncias patrimoniais para apurar possíveis irregularidades.

Planilhas mostram despesas milionárias

A análise do celular de Vorcaro revelou ainda planilhas intituladas “Despesas Gerais”.

Os arquivos eram compartilhados com Fabiano Zettel e serviam para controlar e autorizar pagamentos.

As despesas mensais fixas, operacionais e pessoais variavam entre R$ 6,3 milhões e R$ 6,55 milhões.

Entre os gastos aparecem condomínios, energia elétrica, IPTU, honorários advocatícios, relações públicas internacionais e pagamentos destinados a Felipe Mourão.

A aviação executiva aparece entre os maiores custos.

As despesas com manutenção, combustível e serviços para aeronaves chegaram a variar entre R$ 4,95 milhões e R$ 6 milhões em determinados meses.

Os documentos também registram compromissos milionários com galerias de arte, reformas de imóveis de alto padrão e aquisição de itens para propriedades.

Em alguns períodos, considerando compromissos acumulados e parcelas de aquisições, o total registrado nas planilhas chegou a R$ 84,6 milhões.

Perfil de atriz hackeado envolve estrutura de segurança

Outro episódio revelado pela PF envolve a atriz Monique Alfradique.

Em maio de 2024, a conta da artista no Instagram foi invadida e passou a ser utilizada para divulgar anúncios fraudulentos e induzir seguidores a realizar transferências via Pix.

Segundo a investigação, Vorcaro enviou os dados de acesso da conta para Felipe Mourão e determinou que ele atuasse para recuperar o perfil.

Mourão teria estabelecido contato com os responsáveis pelo ataque e recebido deles um áudio durante as negociações.

Quando houve resistência para devolver o controle da conta, o operador teria afirmado que “a turma” iria atrás dos envolvidos.

Depois que o acesso foi recuperado, seguidores relataram prejuízos causados pelos golpes.

Foi nesse contexto que, segundo a PF, Vorcaro enviou a Mourão a orientação “alinha com o PCC rsrs”.

Para os investigadores, o diálogo indica a existência de canais de contato e capacidade de articulação com integrantes de organizações criminosas.

Novas suspeitas envolvendo Dias Toffoli

O material tornado público também trouxe suspeitas relacionadas ao ministro Dias Toffoli.

Segundo relatório da Polícia Federal enviado a André Mendonça, os investigadores levantaram a hipótese de que Toffoli fosse o “beneficiário final” ou “proprietário de fato” do fundo Arleen.

O fundo teria recebido R$ 35 milhões em recursos repassados por Vorcaro.

A apuração aponta que os valores teriam sido direcionados às Ilhas Virgens Britânicas.

O fundo Arleen era sócio do resort Tayayá, empreendimento pertencente ao ministro e a familiares no Paraná.

Esses elementos passaram a integrar a análise do caso dentro do Supremo Tribunal Federal.

Escritório da esposa de Moraes recebeu contrato milionário

Outro documento agora público detalha um contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.

O acordo foi firmado em 16 de janeiro de 2024 e previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos.

Ao final do contrato, o valor chegaria a aproximadamente R$ 108 milhões líquidos.

Considerando os valores brutos e os descontos tributários previstos, o montante alcançaria aproximadamente R$ 131 milhões.

O contrato tinha duração de três anos e previa atuação jurídica, estratégica e de compliance perante o Judiciário, Ministério Público, Polícia Judiciária e órgãos como Banco Central, Receita Federal e CADE.

Também estavam previstas atividades relacionadas à implantação de programas de integridade, due diligence, códigos de ética e canais de denúncia.

Relação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes entra no centro da crise do STF

Além dos novos documentos, a investigação já havia provocado uma crise institucional dentro do Supremo.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram que, em 15 de novembro de 2025, o empresário enviou mensagem a Alexandre de Moraes perguntando: “Acha que 2ª tenho que estar fora?”

A mensagem foi enviada dois dias antes de uma ordem de prisão contra o banqueiro.

No dia seguinte, Vorcaro voltou a insistir em uma reunião presencial e afirmou que determinadas ações poderiam destruir seus negócios.

Em 17 de novembro, a Polícia Federal prendeu Vorcaro em flagrante no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando ele tentava embarcar em seu avião particular para deixar o país.

A análise do aparelho celular também apontou que o empresário tinha acesso, em tempo real, a informações confidenciais relacionadas a investigações do Banco Central e da Justiça Federal.

Mendonça retira sigilo e envia material para análise do STF

A crise ganhou novo capítulo quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo de documentos relacionados ao caso.

A medida ocorreu após solicitação do presidente do STF, Edson Fachin, que determinou o envio dos dados à Presidência da Corte e aos demais ministros.

Mendonça também levantou o sigilo de outros inquéritos, reclamações e petições relacionados ao caso.

A decisão abriu o acesso a documentos que estavam restritos e que passaram a revelar detalhes sobre as relações financeiras, institucionais e pessoais investigadas.

Fachin assume inquérito e convoca plenário

A divulgação dos documentos ocorre em meio a uma disputa interna no STF.

Fachin retirou Alexandre de Moraes da relatoria do Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News, e assumiu a condução da fase preliminar.

O presidente da Corte também suspendeu decisões conflitantes envolvendo o comando da Polícia Federal.

A disputa começou após André Mendonça determinar o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa.

O ministro Flávio Dino suspendeu a decisão e manteve a cúpula da PF nos cargos.

Fachin, posteriormente, suspendeu tanto a decisão de Mendonça quanto a de Dino, mantendo provisoriamente os policiais no comando.

O presidente do STF ainda determinou que Andrei Rodrigues explique como foram produzidos relatórios de inteligência que avaliavam atos do Judiciário.

Plenário deve analisar relação entre ministros e Vorcaro

Fachin marcou para 15 de setembro uma sessão presencial do plenário do Supremo para analisar os documentos relacionados ao Caso Master.

Entre os pontos está o relatório da Polícia Federal que aponta elementos sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.

Também será analisado o pedido de Mendonça para que o plenário avalie a abertura de investigação a partir dos documentos.

A crise envolve ainda as acusações apresentadas por Moraes contra Mendonça, que incluem suspeitas de abuso de autoridade, improbidade e outros possíveis crimes.

O que as investigações revelam até agora

Com a retirada do sigilo, o Caso Master passa a apresentar um cenário mais amplo do que a investigação financeira inicialmente conhecida.

Os documentos indicam que a PF investiga uma possível rede de influência envolvendo estruturas privadas, agentes públicos, operadores financeiros e integrantes de forças de segurança.

Também são apurados possíveis acessos ilegais a sistemas públicos, vazamento de informações sigilosas, pagamentos suspeitos, contratos considerados fictícios, movimentações financeiras internacionais e relações com organizações criminosas.

Ao mesmo tempo, documentos passaram a expor relações contratuais e financeiras envolvendo pessoas próximas ou ligadas a integrantes do STF.

As informações, porém, fazem parte de investigações em andamento e apontamentos da Polícia Federal, não significando, por si só, que todos os envolvidos tenham sido responsabilizados criminalmente.

O material agora público deverá ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Ministério Público, que poderão decidir sobre novas diligências, abertura de procedimentos e eventual responsabilização dos investigados.

O caso, portanto, deixa de ser apenas uma investigação sobre as operações financeiras do Banco Master e passa a envolver também suspeitas sobre influência institucional, acesso privilegiado a informações, atuação clandestina e relações entre o setor privado e agentes públicos.

Resumo da Notícia

  • Documentos liberados pelo STF ampliam as informações sobre as investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
  • A PF aponta uma estrutura de espionagem e vigilância, com acesso a sistemas restritos e monitoramento de investigações.
  • Servidores do Banco Central são investigados por suposta atuação paralela em defesa dos interesses do grupo financeiro.
  • O material revela ainda planilhas milionárias, contratos, movimentações financeiras e relações com agentes públicos.
  • As descobertas aumentam

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