Voto cruzado desafia chapas completas e pode definir disputa ao Senado na Paraíba

Voto cruzado desafia chapas completas e pode definir disputa ao Senado na Paraíba

Paraíba
26 de Julho de 2026
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A pouco mais de dois meses das eleições de 4 de outubro, um fenômeno tradicional da política paraibana volta ao centro das atenções: o voto cruzado. Diferentemente do que ocorreu em 1994, quando o eleitor escolheu praticamente uma chapa completa para o Governo do Estado e para o Senado, o cenário de 2026 aponta para uma divisão muito maior dos votos entre candidatos de diferentes grupos políticos, especialmente na disputa pelas duas vagas ao Senado Federal.

No primeiro turno das Eleições 2026, 3.247.397 eleitores estão aptos a votar na Paraíba, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), um crescimento de mais de 155 mil votantes em relação a 2022. O eleitor paraibano escolherá presidente da República, governador, dois senadores, deputados federais e estaduais. A ampliação do eleitorado ocorre em um ambiente marcado pela polarização nacional e pela fragmentação das alianças estaduais, fatores que ajudam a explicar a tendência do chamado voto cruzado.

Na prática, essa dinâmica significa que muitos eleitores pretendem votar em candidatos de grupos diferentes para ocupar as duas cadeiras do Senado. Hoje, por exemplo, já circulam combinações como João Azevêdo (PSB) e Veneziano Vital do Rêgo (MDB)Veneziano e Nabor Wanderley (Republicanos) ou Marcelo Queiroga (PL) e Nabor Wanderley, reduzindo as chances de uma única aliança conquistar as duas vagas. Esse comportamento contrasta com um dos momentos mais emblemáticos da política paraibana.

O precedente de 1994

Há 32 anos, a Paraíba viveu uma eleição considerada histórica. Embalado pelo sucesso do Plano Real e pelo prestígio nacional do governo Itamar Franco, o então governador Ronaldo Cunha Lima foi eleito senador, ajudou a eleger Antônio Mariz para o Governo do Estado e garantiu a reeleição de Humberto Lucena ao Senado, com o famoso bordão: A Paraíba é quem diz: Ronaldo, Humberto e Mariz.

Foi a última vez que uma mesma composição política conquistou, simultaneamente, o Governo do Estado e as duas vagas para o Senado.

O grupo já vinha acumulando vitórias desde o início da década. Em 1990, Ronaldo Cunha Lima venceu a disputa pelo Governo, enquanto Antônio Mariz foi eleito senador. Quatro anos depois, a força política do grupo se consolidou com a eleição de Mariz para governador e de Ronaldo e Humberto Lucena para o Senado.

Humberto Lucena, que mais tarde chegaria à presidência do Senado Federal, permanece como o último senador paraibano a conseguir a reeleição. Desde então, nenhum ocupante do cargo conseguiu renovar o mandato.

A configuração das principais chapas para a disputa estadual ajuda a explicar esse comportamento do eleitor. No campo governista, a composição reúne o governador Lucas Ribeiro (PP) como candidato ao Governo do Estado, tendo o ex-governador João Azevêdo (PSB) e o ex-prefeito de Patos, Nabor Wanderley (Republicanos) na disputa pelas duas vagas ao Senado. Na oposição, a chapa é encabeçada pelo ex-prefeito de João Pessoa Cícero Lucena (MDB), acompanhado dos candidatos ao Senado Veneziano Vital do Rêgo (MDB) e André Gadelha (MDB). Já o campo da direita tem o senador Efraim Filho (PL) como candidato ao governo e oex-ministro  da saúde, Marcelo Queiroga (PL) como um dos postulantes ao Senado, enquanto o ex-deputado federal Major Fábio (Novo) disputa espaço para ocupar a segunda vaga na chapa. Apesar dessa divisão formal entre os grupos políticos, lideranças estaduais e municipais têm demonstrado apoio a candidatos de diferentes alianças, sobretudo na disputa ao Senado, fortalecendo o chamado voto cruzado e reduzindo as possibilidades de uma chapa conquistar, de forma integral, a preferência do eleitorado, como ocorreu na histórica eleição de 1994.

Cenário nacional pesa novamente

Jonas Duarte, professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Em entrevista ao Portal Fonte83, o professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)Jonas Duarte, mestre em Economia pela UFPB e doutor em História Econômica pela USP, avalia que o contexto nacional continuará exercendo influência direta sobre a disputa deste ano.

“O principal fator que deve definir o voto para o Senado em 2026 é o alinhamento, ou não, com o governo federal. A Paraíba deve dar mais de 65% dos votos para o presidente Lula. Basta percorrer o interior do estado para perceber isso. As exceções são João Pessoa e Campina Grande, onde há uma classe média historicamente mais antipetista desde 2014”, pontuou.

Segundo o historiador, esse cenário beneficia candidatos ligados ao campo governista, mas não impede o eleitor de dividir seus votos. “Mesmo assim, candidatos ao Senado conseguem penetrar nesse eleitorado porque não pertencem ao PT, embora sejam identificados com o campo de apoio ao presidente Lula. Veneziano reúne apoios importantes. Em Campina Grande, conta com a influência do grupo político ligado aos Cunha Lima. Em João Pessoa, tem apoio de parte da estrutura da Prefeitura. No interior, soma o eleitorado alinhado a Lula”, argumentou.

Para ele, João Azevêdo também parte em posição competitiva. “João Azevêdo tem a máquina do Governo do Estado e o apoio do governador Lucas Ribeiro. Por isso, considero que João e Veneziano largam como favoritos”, disse.

O peso das estruturas políticas

Jonas Duarte ressalta, porém, que a influência do governador possui limites e lembra exemplos recentes. “O apoio do governador certamente influencia a eleição para senador, mas, sozinho, não é decisivo”, destacou.

Ao recordar 2018, ele destaca que Veneziano foi eleito impulsionado pelo então governador Ricardo Coutinho, enquanto Daniella Ribeiro cresceu na reta final ao conquistar prefeitos e parte do eleitorado de outras candidaturas. Já em 2022, segundo o pesquisador, a divisão do campo governista acabou favorecendo Efraim Filho. “João Azevêdo lançou Pollyanna Werton ao Senado, enquanto Ricardo Coutinho também disputou a vaga. Somados, os votos de Ricardo e Pollyanna superariam com folga a votação de Efraim. O fato concreto é que a divisão favoreceu Efraim”, explicou para a reportagem do Portal Fonte83.

Por que o voto cruzado tende a prevalecer

Na avaliação do professor, o comportamento do eleitor paraibano dificilmente repetirá o modelo observado em 1994.”O voto cruzado sempre foi uma característica do eleitor paraibano e acredito que continuará sendo”, disse.

Ele explica que diferentes fatores favorecem candidatos distintos. “Muitos eleitores tendem a votar em João Azevêdo para uma das vagas pelo bom desempenho do governo e, ao mesmo tempo, em Veneziano pela identificação com o presidente Lula”, comentou.

Ao mesmo tempo, destaca o fortalecimento das lideranças municipais. “Há um fator novo: a força dos prefeitos, impulsionada pelas emendas parlamentares. Isso fortalece a candidatura de Nabor Wanderley, que vem conquistando apoios importantes no interior. Ainda assim, não é possível afirmar que esses apoios serão integralmente transferidos para o voto popular”, destacou.

Outro nome citado é Marcelo Queiroga. “O bolsonarismo possui uma base consistente na Paraíba e tende a concentrar seus votos em um único candidato ao Senado. Isso pode fazer de Queiroga uma das surpresas da eleição”, ressaltou.

O desafio de Veneziano

Além da disputa pelas duas vagas, outro aspecto torna a eleição de 2026 relevante: a possibilidade de reeleição do senador Veneziano Vital do Rêgo. Caso renove o mandato, ele encerrará um longo intervalo sem reeleições ao Senado na Paraíba.

Segundo Jonas Duarte, o parlamentar chega competitivo. “Na minha avaliação, Veneziano chega muito competitivo para buscar a reeleição”, detalhou.

O professor atribui esse desempenho à atuação parlamentar e ao posicionamento político do senador. “Ele consolidou uma atuação marcada pela defesa da democracia e do governo Lula, recuperou espaço junto ao campo progressista, destinou muitos recursos para a Paraíba e construiu uma base política consistente”, declarou.

Ainda assim, aponta obstáculos importantes. “O principal desafio está no crescimento da candidatura de Nabor Wanderley, impulsionada pelo poder político de Hugo Motta e pela capacidade de atrair prefeitos”, evidenciou.

Um cenário diferente de 1994

Para Jonas Duarte, embora o cenário nacional continue influenciando as eleições para o Senado, as condições atuais são muito diferentes das existentes há três décadas. “A eleição de 1994 teve características muito específicas por causa do Plano Real, que deu enorme prestígio ao governo Itamar Franco e impulsionou Fernando Henrique Cardoso”, frisou.

Segundo ele, hoje o ambiente é mais fragmentado. “O contexto de 2026 é completamente diferente. O governo Lula apresenta resultados importantes, mas enfrenta um ambiente político muito mais polarizado. O bolsonarismo continua forte e mantém um eleitorado fiel. Por isso, ser aliado de Lula já não garante vitória automática”, afirmou o especialista.

Ele acrescenta que o fortalecimento do Congresso Nacional e das emendas parlamentares ampliou o peso dos prefeitos nas campanhas. “Hoje deputados e senadores possuem instrumentos muito mais fortes para consolidar alianças com prefeitos, que acabam influenciando diretamente o eleitorado”, ressaltou.

Repetição de eleger a chapa completa é improvável

Ao comparar os dois momentos históricos, Jonas Duarte considera pouco provável que a Paraíba repita o desempenho eleitoral de 1994. “Se analisarmos a história recente da Paraíba, veremos que praticamente todas as eleições para o Senado sofreram influência do cenário nacional. Em 2026, essa influência tende a ser ainda maior por causa da polarização entre lulismo e bolsonarismo”, explicou. E conclui: “Portanto, não creio que vá se repetir aquela situação”, cravou.

A avaliação reforça a tendência de uma disputa marcada pelo voto dividido, na qual alianças estaduais, influência do cenário nacional, força dos prefeitos e desempenho individual dos candidatos poderão pesar mais do que a fidelidade do eleitor a uma única chapa. Nesse ambiente, a tentativa de reeleição de Veneziano Vital do Rêgo e a disputa entre João Azevêdo, Nabor Wanderley, André Gadelha, Marcelo Queiroga e Major Fábio devem concentrar as atenções até a votação de 4 de outubro, quando os paraibanos definirão a nova composição da bancada do Estado no Senado Federal.

Fonte 83

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